terça-feira, 19 de janeiro de 2021

CDP-I


 











CDP I - OS AMANTES

 

Uma lágrima quente cai suavemente,

Contornando aquela face tão bela.

O seu cheiro de canela

Paira no ar eternamente.

A lágrima segue o seu caminho

Transformando-se em pérola.

Ela olha à janela cheia de comoção,

Espera pelo seu amante,

Que não retorna da Guerra.

A pérola rola brilhando

No fundo do coração.

 

 

CDP I - PALAVRAS DE AMIZADE

  

A amizade é uma flor,

Que nasce no coração.

Cultivada no amor,

No combate à solidão.

A amizade é um carinho,

Que se faz bem de mansinho.

É o sonho de uma criança,

Que nasce naquele ninho.


 

CDP I - UM BEIJO


Um beijo é um desejo ardente de carinho,

É querer dar algo e receber,

É um momento doce de loucura,

Envolto em fragmentos de Prazer.

É um suspiro delicado que se toma,

Dos lábios aveludados de quem se ama,

É um clamor sensual que emana,

Vermelho de intensidade e envolvente de frescura,

Como o perfume de uma rosa impaciente,

Que nos enlaça em abraços de ternura.



CDP I - O CAJADO

 

Hoje sonhei que era uma Árvore...

As minhas folhas dançavam ao vento,

Os meus ramos altos seguravam-nas delicadamente,

E uma sombra fresca era projectada na terra.

O meu tronco era forte e sustentava a vida,

As minhas raízes profundas enterradas na terra,

Suportavam os mais fortes vendavais.

Depois veio o homem com o fogo,

E eu não podendo fugir, fui sufocando lentamente.

Mas o homem não contente voltou de novo,

E com um pesado machado,

Cortou o meu tronco rente à terra.

Hoje já não sou árvore,

Sou um bordão de um velho homem.

Eu sustento-o, defendo-o,

Afastando os seus medos,

E ele guarda-me com amizade.


 

CDP I - “CONVERSANDO A SÓS CONTIGO”

 

«(…) Conversando a sós contigo

Desfruto do prazer imenso

De não pensar no que digo

E dizer aquilo que penso

E mais uma vez afirmo

Sempre receio de que seja desmentido

A maior felicidade é ser-se compreendido! (…)»

 

António Botto


Conversando a sós contigo,

É como ter um amigo

Dentro do coração...

Falo de tudo e de nada,

Mas não te quero enganada

Agarrada à ilusão...

Conversando a sós contigo,

Digo aquilo que não quero,

E depois eu desespero,

Por não te poder dizer,

Tudo aquilo que queria,

Mas espero que um dia,

Eu te venha a dizer.

No fundo a ilusão

É o que alimenta a esperança,

E reacende a lembrança,

De uma luz que se viveu,

Mas que nunca se esqueceu,

Por se dançar embriagado

Recordando o passado,

Em tons de azul e encarnado.

 

«(…) Conversando a sós contigo (...)»


 

CDP I - DESTINOS

 

Um homem aguarda, sentado,

Num vão de escada escuro e frio,

Sem luz nem brio nem dignidade,

Sem alarde, ele mentiu.

 

Mentiu para enganar a fome,

Que lhe esmaga as entranhas.

Um homem com muitas manhas

Que vive das ilusões.

Fogo que acende as paixões

Mas mata mil milhões

De ideias livres e soltas...

Um homem farto e enfadado

Sem rumo, sem norte e sem fado

Que espera por emoções,

Um homem que conta os tostões

E come avidamente a esperança

Para esquecer a lembrança

De um passado de amargura.

Um homem sem sorte

Que, contudo, engana a morte.

Um homem que come esperança,

Mas a lembrança perdura.

 


CDP I - RECORDAÇÕES  DE  ENCARNADO

 

No fundo da minha alma

Levo-te hoje para dar

Uma rosa encarnada.

Das mais belas que eu encontrar

É uma rosa apaixonada

Que eu quero abraçar.

É uma rosa encarnada

Aquela que eu quero amar.

O tempo que eu fui esperando,

É apenas uma ilusão.

A vida que foi passando

Gelou-me o coração.


 

CDP I - SONHOS DE ESPERANÇA

 

Amor,

 

Sinto que as horas não tardam

Escorrendo por entre os meus dedos impotentes.

Os mesmos que afagam o teu cabelo perfumado

Em carícias nostálgicas de azul.

 

Envolvendo-te num abraço suplicante

Percorro o teu corpo quente e palpitante,

Que como uma fonte de prazer,

Nos faz cair em momentos de esquecimento.

Amor, não te vás embora,

Não me deixes sozinho com os meus pensamentos,

Não te afastes de mim.

 

Quero beber dos teus lábios insatisfeitos a palavra paixão,

Quero transbordar-te de prazer e satisfação,

Para depois saborearmos o momento de estarmos juntos.

Sabes, amor?

 

Quantas vezes me sinto perdido

Esperando por um novo encontro?

Tantas como as que tenho sonhado,

Imaginando que no passado,

Não existia solidão,

 

Mas simplesmente...

 

Amor, e paixão!



CDP I - PÓ DE ESTRELAS

 

Uma estrela brilha no coração do nada.

A sua luz aquece e ilumina a esperança,

Uma lágrima quente ela derrama

Vertendo-a no espaço frio...

No vento solar ela vigia

Trespassando o vazio com o seu brilho.

Heis que uma lágrima cai do céu

E transforma-se em vida.

Vida frágil, preciosa,

Que sorri e canta alegremente,

Que não parece estar doente,

Mas mal nasce está condenada.

A vida é... Hipotética,

A morte é... Conclusão,

A vida é um instante

Que se perde na imensidão.

O nosso corpo, quando abandonando a vida

A deixa seguir o seu caminho,

Transforma-se em pó de estrelas,

Tão brilhantes e belas,

Tão vivas e tão singelas,

Mas que também morrem devagarinho...



CDP I - FILHOS DA RUA


Dois olhos meigos, mas cansados,

Percorrem atentamente o horizonte.

Buscam o norte da esperança...

Uma boca esfomeada, gretada pelo frio...

Uma alma desencantada à beira-rio.

Um grito de tormento que ecoa,

Que livre como o vento corre,

Corre sempre sem parar...

Buscando a sorte, fugindo à morte...

Um corpito sujo e magoado que tirita de frio.

São as crianças da rua,

Perdidas na vida.

São vítimas inocentes

De uma loucura desmedida...



CDP I - A GARATUJA

 

Amei sempre toda a gente.

Tentei viver dignamente,

Dizendo sempre a verdade.

 

Não sou leigo nem doutor,

E neste momento de dor

Choro com muita saudade.

 

Toda a vida encontrei

Alguém que quis ser rei,

Presidente ou imperador.

Mas neste momento de dor,

Lembro-me da fina flor

Que me ensinou a verdade.

 

Quando eu era pequenino,

Estando um dia sentado

Na escola a desenhar

Um tema por ela mandado,

Que com enorme cuidado

Eu devia executar.

Terminado este trabalho,

E para meu grande espanto,

Vi meu desenho louvado...

Ganhei fama, e outro tanto…

Orgulhoso fiquei de ver minha garatuja

Ao alto afixada, com destaque de Amizade.

 

É com eterna saudade

Que recordo estes tempos

E, com profunda ternura,

Fui entregando meus talentos,

Quando podia-me encontrar

Com a minha professora.

Foi essa terna senhora,

A quem eu muito estimava,

Aquela que me ensinava

A mais bela das lições:

 

- “Tem Fé e Ama a Cristo

Reza as tuas orações.”

 

5/11/91

 

À memória de uma professora... que me “cativou”.


 

CDP I - ORAÇÃO


Se eu algum dia morrer,

De doença ou infortúnio,

Peço a Deus que me perdoe

Sou um pecador do mundo.

Passados que foram os anos

Já aprendi a lição,

De todos os problemas

Só um não tem solução.

Se um dia filhos tiver

Desejo-lhes melhor sorte.

Peço a Deus que me perdoe,

Livrai-os da minha morte.


5/11/91

 


CDP I - GOTA DE ORVALHO

 

A gota de orvalho

Que caí de uma flor,

O canto de uma ave,

A voz do Amor,

O grito profundo

Que cresceu dentro de mim,

A solidão, o mundo,

Parecem não ter fim.

O Azul do Céu

Reflectido no mar…

A calma emanante

Que paira no ar,

O esplendor do Sol

Que nasceu além,

Por traz da montanha

Cantam as aves também.


 

CDP I - O HOMEM

 

  Aquele VELHO sentado

   que brinca...

      Aquele HOMEM que chora

       apaixonado...

          Aquela triste figura

           que outrora foi;

           MARIDO , PAI , TRABALHADOR...

              Aquele HOMEM que sente a dor,

               e depois canta...

                  AQUELE a quem já não se pede

                   compostura,

                               ESTÁ LIVRE...

                          livre para ser CRIANÇA...

 

 

CDP I - ILUSÕES

 

Na areia eu construí um castelo,

Era meu, só meu,

Era alto, forte... era belo.

Era um castelo de ilusões,

Era o meu mundo de sonho...

 

Deito-me na areia e observo as nuvens alvas,

Aquela parece-me familiar,

Já a encontrei em outros sonhos.

Descubro formas e pessoas que nunca conheci,

Formas que no entanto me parecem tão familiares...

Uma gaivota grita subitamente

Trazendo-me de novo à realidade.

Levanto-me lentamente

E começo a caminhar praia fora...

Estou descalço e tenho frio.

Um vento agreste, vindo do Norte,

Dificulta-me o andar

E lentamente perco o alento.

Deixei um rasto na areia

Que se esbate ao sabor das ondas.

Lá longe, o meu castelo afunda-se

Dissolvendo-se no mar.

São as minhas ilusões

Que navegam perdidas nas ondas,

Fica apenas a esperança de retornar um dia…



CDP I - LEMBRANÇAS

 

Tenho na mão uma flor,

Da cor da esperança...

Na outra, tenho a ilusão

Da verdade.

No corpo, tenho a marca

Da lembrança...

Guardo no coração a saudade.

Tenho comigo uma criança,

Que sorrindo me encanta.

Também tenho um passarinho

Que canta de felicidade...

Mas um sorriso é efémero,

Assim como a verdade.

A criança ri e chora

Ao mesmo tempo...

E o vento afaga o seu rosto pequenino...

Criança do mundo e do vento,

Criança coração, criança de solidão,

Mundo de ilusão.

São momentos apenas que eu recordo,

Momentos de mentira e de verdade,

Momentos frágeis, mas eternos,

Que contudo nos enchem de saudade...



CDP I - PELA MANHÃ

 

Quando as estrelas se aconchegam no firmamento

Para se deitarem no leito celeste,

E os sonhos se desvanecem em mil pedaços,

Levados pelo vento.

Quando a lua nua se veste

E seu esplendor recolhe com pudor;

Quando já não há ninguém que sonhe

Em busca de reinos e paixões;

Quando as gotas de orvalho acordam

As mais belas flores do campo,

Descobre-se por fim o encanto,

Despertam desejos escondidos...

O dia chega lentamente e toca a noite,

Beija-lhe a face cansada de esperar,

Afaga os seus longos cabelos ondulados,

E sussurra-lhe levemente palavras de consolo,

É o encontro da noite com o dia

De natureza breve e apaixonada,

São lágrimas de tudo e de nada

Que marcam a hora...

É o primeiro raio de luz que não demora

Para partir em seguida...

Aguardo o momento do encontro.

Sinto a sua presença na ausência.

Penso se partirá agora

Ou se esperará por mim...

Breve como um suspiro,

Cristalino como a água da mais pura nascente,

O seu sorriso recordo, mas não choro

Para não acordar a mágoa.

Sinto que é chegada a hora.

É a luz que não demora

Partindo para um novo dia.

Penso que morro!

Quero correr e agarrá-la,

Abraçá-la, beijá-la,

Dizer-lhe que a amo

Mas já vou tarde...

Mais uma vez perdi-a...

Se não me engano,

Parece-me vê-la ao longe, agora…

Por momentos consigo tocar-lhe,

Mas não posso contar-lhe

Tudo aquilo que sinto,

Pois o dia vai nascendo

E com ele eu vou morrendo

Sempre que a vejo partindo...