Uma lágrima
quente cai suavemente,
Contornando
aquela face tão bela.
O seu cheiro
de canela
Paira no ar
eternamente.
A lágrima
segue o seu caminho
Transformando-se
em pérola.
Ela olha à
janela cheia de comoção,
Espera pelo
seu amante,
Que não retorna
da Guerra.
A pérola
rola brilhando
No fundo do
coração.
A amizade é
uma flor,
Que nasce no
coração.
Cultivada no
amor,
No combate à
solidão.
A amizade é
um carinho,
Que se faz
bem de mansinho.
É o sonho de
uma criança,
Que nasce
naquele ninho.
Um beijo é
um desejo ardente de carinho,
É querer dar
algo e receber,
É um momento
doce de loucura,
Envolto em
fragmentos de Prazer.
É um suspiro
delicado que se toma,
Dos lábios
aveludados de quem se ama,
É um clamor
sensual que emana,
Vermelho de
intensidade e envolvente de frescura,
Como o
perfume de uma rosa impaciente,
Que nos
enlaça em abraços de ternura.
Hoje sonhei
que era uma Árvore...
As minhas
folhas dançavam ao vento,
Os meus
ramos altos seguravam-nas delicadamente,
E uma sombra
fresca era projectada na terra.
O meu tronco
era forte e sustentava a vida,
As minhas
raízes profundas enterradas na terra,
Suportavam
os mais fortes vendavais.
Depois veio
o homem com o fogo,
E eu não
podendo fugir, fui sufocando lentamente.
Mas o homem
não contente voltou de novo,
E com um
pesado machado,
Cortou o meu
tronco rente à terra.
Hoje já não
sou árvore,
Sou um
bordão de um velho homem.
Eu
sustento-o, defendo-o,
Afastando os
seus medos,
E ele
guarda-me com amizade.
«(…) Conversando a sós contigo
Desfruto do prazer imenso
De não pensar no que digo
E dizer aquilo que penso
E mais uma vez afirmo
Sempre receio de que seja desmentido
A maior felicidade é ser-se
compreendido! (…)»
António
Botto
Conversando
a sós contigo,
É como ter
um amigo
Dentro do
coração...
Falo de tudo
e de nada,
Mas não te
quero enganada
Agarrada à
ilusão...
Conversando
a sós contigo,
Digo aquilo
que não quero,
E depois eu
desespero,
Por não te
poder dizer,
Tudo aquilo
que queria,
Mas espero
que um dia,
Eu te venha
a dizer.
No fundo a
ilusão
É o que
alimenta a esperança,
E reacende a
lembrança,
De uma luz
que se viveu,
Mas que
nunca se esqueceu,
Por se
dançar embriagado
Recordando o
passado,
Em tons de
azul e encarnado.
«(…) Conversando a sós contigo (...)»
Um homem
aguarda, sentado,
Num vão de
escada escuro e frio,
Sem luz nem
brio nem dignidade,
Sem alarde,
ele mentiu.
Mentiu para
enganar a fome,
Que lhe
esmaga as entranhas.
Um homem com
muitas manhas
Que vive das
ilusões.
Fogo que
acende as paixões
Mas mata mil
milhões
De ideias
livres e soltas...
Um homem
farto e enfadado
Sem rumo,
sem norte e sem fado
Que espera
por emoções,
Um homem que
conta os tostões
E come
avidamente a esperança
Para
esquecer a lembrança
De um
passado de amargura.
Um homem sem
sorte
Que,
contudo, engana a morte.
Um homem que
come esperança,
Mas a lembrança
perdura.
No fundo da
minha alma
Levo-te hoje
para dar
Uma rosa
encarnada.
Das mais
belas que eu encontrar
É uma rosa
apaixonada
Que eu quero
abraçar.
É uma rosa
encarnada
Aquela que
eu quero amar.
O tempo que
eu fui esperando,
É apenas uma
ilusão.
A vida que
foi passando
Gelou-me o
coração.
Amor,
Sinto que as
horas não tardam
Escorrendo
por entre os meus dedos impotentes.
Os mesmos
que afagam o teu cabelo perfumado
Em carícias
nostálgicas de azul.
Envolvendo-te
num abraço suplicante
Percorro o
teu corpo quente e palpitante,
Que como uma
fonte de prazer,
Nos faz cair
em momentos de esquecimento.
Amor, não te
vás embora,
Não me
deixes sozinho com os meus pensamentos,
Não te
afastes de mim.
Quero beber
dos teus lábios insatisfeitos a palavra paixão,
Quero
transbordar-te de prazer e satisfação,
Para depois
saborearmos o momento de estarmos juntos.
Sabes, amor?
Quantas
vezes me sinto perdido
Esperando
por um novo encontro?
Tantas como
as que tenho sonhado,
Imaginando
que no passado,
Não existia
solidão,
Mas
simplesmente...
Amor, e
paixão!
Uma estrela
brilha no coração do nada.
A sua luz
aquece e ilumina a esperança,
Uma lágrima
quente ela derrama
Vertendo-a
no espaço frio...
No vento
solar ela vigia
Trespassando
o vazio com o seu brilho.
Heis que uma
lágrima cai do céu
E
transforma-se em vida.
Vida frágil,
preciosa,
Que sorri e
canta alegremente,
Que não parece
estar doente,
Mas mal
nasce está condenada.
A vida é... Hipotética,
A morte é...
Conclusão,
A vida é um
instante
Que se perde
na imensidão.
O nosso
corpo, quando abandonando a vida
A deixa
seguir o seu caminho,
Transforma-se
em pó de estrelas,
Tão
brilhantes e belas,
Tão vivas e
tão singelas,
Mas que
também morrem devagarinho...
Dois olhos
meigos, mas cansados,
Percorrem
atentamente o horizonte.
Buscam o
norte da esperança...
Uma boca
esfomeada, gretada pelo frio...
Uma alma
desencantada à beira-rio.
Um grito de
tormento que ecoa,
Que livre
como o vento corre,
Corre sempre
sem parar...
Buscando a
sorte, fugindo à morte...
Um corpito
sujo e magoado que tirita de frio.
São as
crianças da rua,
Perdidas na
vida.
São vítimas
inocentes
De uma
loucura desmedida...
Amei sempre
toda a gente.
Tentei viver
dignamente,
Dizendo
sempre a verdade.
Não sou
leigo nem doutor,
E neste
momento de dor
Choro com
muita saudade.
Toda a vida
encontrei
Alguém que
quis ser rei,
Presidente
ou imperador.
Mas neste
momento de dor,
Lembro-me da
fina flor
Que me
ensinou a verdade.
Quando eu
era pequenino,
Estando um
dia sentado
Na escola a
desenhar
Um tema por
ela mandado,
Que com
enorme cuidado
Eu devia
executar.
Terminado
este trabalho,
E para meu
grande espanto,
Vi meu
desenho louvado...
Ganhei fama,
e outro tanto…
Orgulhoso
fiquei de ver minha garatuja
Ao alto
afixada, com destaque de Amizade.
É com eterna
saudade
Que recordo
estes tempos
E, com
profunda ternura,
Fui
entregando meus talentos,
Quando podia-me
encontrar
Com a minha
professora.
Foi essa
terna senhora,
A quem eu
muito estimava,
Aquela que
me ensinava
A mais bela
das lições:
- “Tem Fé e Ama a Cristo
Reza as tuas orações.”
5/11/91
À memória de
uma professora... que me “cativou”.
Se eu algum
dia morrer,
De doença ou
infortúnio,
Peço a Deus
que me perdoe
Sou um
pecador do mundo.
Passados que
foram os anos
Já aprendi a
lição,
De todos os
problemas
Só um não
tem solução.
Se um dia
filhos tiver
Desejo-lhes
melhor sorte.
Peço a Deus
que me perdoe,
Livrai-os da
minha morte.
5/11/91
A gota de
orvalho
Que caí de
uma flor,
O canto de
uma ave,
A voz do
Amor,
O grito
profundo
Que cresceu
dentro de mim,
A solidão, o
mundo,
Parecem não
ter fim.
O Azul do
Céu
Reflectido
no mar…
A calma
emanante
Que paira no
ar,
O esplendor
do Sol
Que nasceu
além,
Por traz da
montanha
Cantam as aves
também.
Aquele VELHO sentado
que brinca...
Aquele HOMEM que chora
apaixonado...
Aquela triste figura
que outrora foi;
MARIDO , PAI , TRABALHADOR...
Aquele HOMEM que sente a dor,
e depois canta...
AQUELE a quem já não se pede
compostura,
ESTÁ LIVRE...
livre para ser
CRIANÇA...
Na areia eu
construí um castelo,
Era meu, só
meu,
Era alto,
forte... era belo.
Era um
castelo de ilusões,
Era o meu
mundo de sonho...
Deito-me na
areia e observo as nuvens alvas,
Aquela
parece-me familiar,
Já a
encontrei em outros sonhos.
Descubro
formas e pessoas que nunca conheci,
Formas que
no entanto me parecem tão familiares...
Uma gaivota
grita subitamente
Trazendo-me
de novo à realidade.
Levanto-me
lentamente
E começo a
caminhar praia fora...
Estou
descalço e tenho frio.
Um vento
agreste, vindo do Norte,
Dificulta-me
o andar
E lentamente
perco o alento.
Deixei um
rasto na areia
Que se
esbate ao sabor das ondas.
Lá longe, o
meu castelo afunda-se
Dissolvendo-se
no mar.
São as
minhas ilusões
Que navegam
perdidas nas ondas,
Fica apenas
a esperança de retornar um dia…
Tenho na mão
uma flor,
Da cor da
esperança...
Na outra,
tenho a ilusão
Da verdade.
No corpo,
tenho a marca
Da
lembrança...
Guardo no
coração a saudade.
Tenho comigo
uma criança,
Que sorrindo
me encanta.
Também tenho
um passarinho
Que canta de
felicidade...
Mas um
sorriso é efémero,
Assim como a
verdade.
A criança ri
e chora
Ao mesmo
tempo...
E o vento
afaga o seu rosto pequenino...
Criança do
mundo e do vento,
Criança
coração, criança de solidão,
Mundo de
ilusão.
São momentos
apenas que eu recordo,
Momentos de
mentira e de verdade,
Momentos
frágeis, mas eternos,
Que contudo
nos enchem de saudade...
Quando as
estrelas se aconchegam no firmamento
Para se
deitarem no leito celeste,
E os sonhos
se desvanecem em mil pedaços,
Levados pelo
vento.
Quando a lua
nua se veste
E seu
esplendor recolhe com pudor;
Quando já
não há ninguém que sonhe
Em busca de
reinos e paixões;
Quando as
gotas de orvalho acordam
As mais
belas flores do campo,
Descobre-se
por fim o encanto,
Despertam
desejos escondidos...
O dia chega
lentamente e toca a noite,
Beija-lhe a
face cansada de esperar,
Afaga os
seus longos cabelos ondulados,
E
sussurra-lhe levemente palavras de consolo,
É o encontro
da noite com o dia
De natureza
breve e apaixonada,
São lágrimas
de tudo e de nada
Que marcam a
hora...
É o primeiro
raio de luz que não demora
Para partir
em seguida...
Aguardo o
momento do encontro.
Sinto a sua
presença na ausência.
Penso se
partirá agora
Ou se
esperará por mim...
Breve como
um suspiro,
Cristalino
como a água da mais pura nascente,
O seu
sorriso recordo, mas não choro
Para não
acordar a mágoa.
Sinto que é
chegada a hora.
É a luz que
não demora
Partindo
para um novo dia.
Penso que
morro!
Quero correr
e agarrá-la,
Abraçá-la,
beijá-la,
Dizer-lhe
que a amo
Mas já vou
tarde...
Mais uma vez
perdi-a...
Se não me
engano,
Parece-me
vê-la ao longe, agora…
Por momentos
consigo tocar-lhe,
Mas não
posso contar-lhe
Tudo aquilo
que sinto,
Pois o dia
vai nascendo
E com ele eu
vou morrendo
Sempre que a
vejo partindo...