terça-feira, 19 de janeiro de 2021

O PAI (Barreiro, 19 de Março de 1981)

 



- Ó, Pai, sabes que hoje é o teu dia?

- Sim.

- Quando é o dia do Pai todo o mundo parece outro, pois as flores parecem cristais brilhando como estrelas, todo o dia o sol tem mais alegria, pois rodeado de estrelas parece o universo a cantar a mais maravilhosa poesia!

   Quando é o dia do pai é tudo uma alegria.

   Hoje, por exemplo, é tudo uma grande alegria. Mas conforme os segundos, minutos, quartos de hora, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos passam a alegria cada vez é maior. Tão grande será a alegria que o mundo ficará a chamar-se estrela feliz e tão feliz será que brilhará mais que o sol e o universo dirá...

   Viva ao dia do Pai!

   Mas quando esse dia acabar o mundo ficará como dantes.

 

Barreiro, 19 de Março de 1981

INTRODUÇÃO:

 

«(…) Bem-vindos marujas e marujos a estas páginas de poesia (…)»

 

Era mais ou menos assim que começavam os «Cadernos de Poesia» de Miguel Silvestre no então recém-criado site do «Terravista»:

 

(http://www.terravista.pt/nazare/2726/) desactivado!!!

 

Publicados on-line entre 1998 e 1999 marcam a consolidação de uma intensa produção literária (iniciada por volta de 1991) que continua ainda nos dias de hoje da qual se espera não tenha fim à vista.

 

O endereço electrónico escolhido, a referência à praia da Nazaré, tem um especial significado que se compreende quando pensamos numa praia revolta de sentimentos, em marés fortes e intensas que marcavam a vivência de Miguel Silvestre na altura.

 

O endereço 2726 escolhido por Miguel Silvestre para alojar as suas páginas de entre muitos outros endereços disponíveis pode ser compreendido se subtrairmos à data de 1998 (data da publicação das páginas on-line) o ano de 1971 (data de nascimento do poeta) obtendo-se assim o número 27 (a idade de António Dôres na época da publicação dos Cadernos de Poesia I, II e III).

  

Passados alguns anos as respectivas páginas que permaneceram inalteradas foram desactivadas (creio que por volta de 2003 ainda estavam on-line).

 

Com a criação do blogue: «Arritmias» de Miguel Silvestre na sua edição original (esta é a segunda edição) foram relançados alguns poemas que pertenciam à colecção dos antigos «Cadernos de Poesia» I, II e III aos quais foram adicionados outros produzidos numa fase já posterior (pertencentes a outras colecções poéticas de Miguel Silvestre).

 

Decidiu agora Miguel Silvestre reeditar os seus três «Cadernos de Poesia» num blogue próprio para que de todas e todos aqueles que ainda se lembram os possam ler desfrutando assim de uma nova leitura destes pequeninos poemas que agora e passado todo este tempo permitem diferentes e mais profundas interpretações.

 

Todas as datas apresentadas são datas de conclusão dos respectivos poemas. Vários poemas com a mesma data podem ter sido iniciados em alturas diferentes mas concluídos no mesmo dia.


Apenas no livro electrónico: 

[Aos três «Cadernos de Poesia» foi acrescentada uma composição com o título «O Pai» feita a 19 de Março de 1981 tinha então António Dôres 10 anos de idade. Também foi incluído um poema que não constava da compilação original dos «Cadernos de Poesia» com o título «Em busca de um futuro melhor».]

 

Foi ainda recuperado o primeiro trabalho poético de Miguel Silvestre (anterior ao ano de 1981): «Lengalenga do Trigo Doirado».

 

Desfrutem…

PREFÁCIO:

 





O mar… berço da vida. O mar que fascina… que nos dá alimento. Mas aquilo que ao mar se tira, o mar reclama. No sofrimento, sangue, suor e lágrimas de quem nele perde a vida e no pranto inconsolável de quem em terra o espera…

A.D.








LUX

  

«(...) E das trevas se fez a luz

E da luz se fez a matéria

E do pó se fez o homem

E da mulher se fez a criança

E era assim…

No princípio dos tempos (...)»

 

Joseph Joachim

in «versa»


Este livro é dedicado:

 

A todos aqueles que por ele se interessarem…

Leva-me para longe. Oferece-me a uma amiga ou amigo teu.

Mas quando já não me quiseres não me deites fora. Guarda-me no teu coração como lembrança. E um dia, quando menos esperares… descobrirás que eu afinal sempre lá estive presente na tua vida. Para te fazer companhia não só nos momentos alegres mas também na solidão e na tristeza.


Foi aqui que tudo começou. O princípio desta aventura (P)oética…!!... Quando Miguel Silvestre desceu ao corpo de António Dôres e se revelou. É esta a génese, é este o começo, é esta a história que se transforma em «estória» de.vida.

Miguel Silvestre (re).nascia mais uma vez e incorporava em António Dôres, que escrevia sem consciência da mensagem que Miguel Silvestre queria transmitir.

Nasciam assim algumas garatujas pelas mãos inexperientes de António Dôres, que veiculavam uma mensagem muito (M)aior. Os pequeninos poemas que nasciam, transportavam em si um significado que não cabia no corpo dos poemas que António Dôres escrevia. Mas só agora passados tantos anos é que António Dôres se apercebeu da verdadeira dimensão desses pequeninos poemas.

Não te deixes contaminar pelos erros quando os encontrares. São apenas um mero aspecto técnico. Como diria um Grande Senhor das Letras: - «Os erros corrigem-se…».

E foi esta mesma afirmação que fez com que António Dôres não desistisse. A escrita é imperfeita; a técnica não é excelsa; a experiência não é muita. Mas a paixão pela (P)oesia é imensa. O gosto; o prazer; a satisfação que se retira da escrita rimada, superaram tudo o resto.

A mensagem é o que realmente importa. E é exactamente nisto que te deves concentrar quando leres estes «Cadernos de Poesia».

Foram estes três caderninhos que deram origem a todos estes livros de uma coleção desenhada com o mesmo nome do projecto original.

Se te agradarem os poemas lê. Se não te agradarem, lê apenas os Prefácios. É importante ler os prefácios. É importante compreender a mensagem. Desta vez, os erros que encontrares poderão ter mesmo um significado propositado. Alguns erros foram plantados nos Prefácios propositadamente. Os números de página; os tamanhos da letra; a quantidade de palavras que se repetem; a dimensão dos textos em palavras, poderão expressar, ou não, significados ocultos.

Assume então que tudo o que se escreveu tem um sentido. 

O sentido que Miguel Silvestre lhe quis dar.

Por esse motivo, procedi às correcções mínimas dos prefácios desta coleção de livros electrónicos, pois receei estar a eliminar alguma mensagem oculta.

Todos os erros de escrita que encontrares nos poemas são meus.


Mas acima de tudo lembra-te:


O perfeccionismo não é em si uma VIRTUDE.

É um empecilho à criatividade e à execução…!!...

 A VIRTUDE está, pois, em conseguir-se detetar o erro à posteriori e depois corrigi-lo quando oportuno…!!...

Toda as pessoas erram. Errar faz parte da natureza humana…!!...

Todas as pessoas merecem mais (muito mais) do que uma oportunidade na vida…!!...

E quando se erra… Quando isso implica alguma coisa para com os outros:

Pede-se perdão; pede-se desculpa; corrige-se o erro; e compensa-se a falha…!!...

 


O PRIMEIRO POEMA:

 









Lengalenga DO TRIGO DOIRADO

 

Estava eu olhando,

À porta sentado

O sol rebrilhando,

E o infinito prado...

 

Quando de súbito,

Oiço uma voz...

Forte e rude

Como duas mós...


Era um pastor com o seu rebanho,

Cantando uma cantiga

Que um estranho lhe havia ensinado

Quando era cantor...

 

O pastor...

 

Cantava ao trigo, ao sol,

E ao prado, que parecia doirado.

 

Trigo doirado que em breve seria

O pão de cada dia

De quem o havia semeado...


Depois de semeado

O sol doirado o fará crescer,

Para o homem o colher

Do infinito prado...

 

Depois de ceifado

Debulhado será

E dali sairá grão doirado brilhando ao sol

Rolando ao vento até ser apanhado...

 

Depois de ensacado moído será,

E dele sairá branca farinha

Que se amassará para fazer

Pão doirado...


Pão doirado filho do trigo

Do sol e da chuva

Que em breve

Será comido pelo cultivador

Esta era a cantiga

Que cantava o pastor...




CDP-I


 











CDP I - OS AMANTES

 

Uma lágrima quente cai suavemente,

Contornando aquela face tão bela.

O seu cheiro de canela

Paira no ar eternamente.

A lágrima segue o seu caminho

Transformando-se em pérola.

Ela olha à janela cheia de comoção,

Espera pelo seu amante,

Que não retorna da Guerra.

A pérola rola brilhando

No fundo do coração.

 

 

CDP I - PALAVRAS DE AMIZADE

  

A amizade é uma flor,

Que nasce no coração.

Cultivada no amor,

No combate à solidão.

A amizade é um carinho,

Que se faz bem de mansinho.

É o sonho de uma criança,

Que nasce naquele ninho.


 

CDP I - UM BEIJO


Um beijo é um desejo ardente de carinho,

É querer dar algo e receber,

É um momento doce de loucura,

Envolto em fragmentos de Prazer.

É um suspiro delicado que se toma,

Dos lábios aveludados de quem se ama,

É um clamor sensual que emana,

Vermelho de intensidade e envolvente de frescura,

Como o perfume de uma rosa impaciente,

Que nos enlaça em abraços de ternura.



CDP I - O CAJADO

 

Hoje sonhei que era uma Árvore...

As minhas folhas dançavam ao vento,

Os meus ramos altos seguravam-nas delicadamente,

E uma sombra fresca era projectada na terra.

O meu tronco era forte e sustentava a vida,

As minhas raízes profundas enterradas na terra,

Suportavam os mais fortes vendavais.

Depois veio o homem com o fogo,

E eu não podendo fugir, fui sufocando lentamente.

Mas o homem não contente voltou de novo,

E com um pesado machado,

Cortou o meu tronco rente à terra.

Hoje já não sou árvore,

Sou um bordão de um velho homem.

Eu sustento-o, defendo-o,

Afastando os seus medos,

E ele guarda-me com amizade.


 

CDP I - “CONVERSANDO A SÓS CONTIGO”

 

«(…) Conversando a sós contigo

Desfruto do prazer imenso

De não pensar no que digo

E dizer aquilo que penso

E mais uma vez afirmo

Sempre receio de que seja desmentido

A maior felicidade é ser-se compreendido! (…)»

 

António Botto


Conversando a sós contigo,

É como ter um amigo

Dentro do coração...

Falo de tudo e de nada,

Mas não te quero enganada

Agarrada à ilusão...

Conversando a sós contigo,

Digo aquilo que não quero,

E depois eu desespero,

Por não te poder dizer,

Tudo aquilo que queria,

Mas espero que um dia,

Eu te venha a dizer.

No fundo a ilusão

É o que alimenta a esperança,

E reacende a lembrança,

De uma luz que se viveu,

Mas que nunca se esqueceu,

Por se dançar embriagado

Recordando o passado,

Em tons de azul e encarnado.

 

«(…) Conversando a sós contigo (...)»


 

CDP I - DESTINOS

 

Um homem aguarda, sentado,

Num vão de escada escuro e frio,

Sem luz nem brio nem dignidade,

Sem alarde, ele mentiu.

 

Mentiu para enganar a fome,

Que lhe esmaga as entranhas.

Um homem com muitas manhas

Que vive das ilusões.

Fogo que acende as paixões

Mas mata mil milhões

De ideias livres e soltas...

Um homem farto e enfadado

Sem rumo, sem norte e sem fado

Que espera por emoções,

Um homem que conta os tostões

E come avidamente a esperança

Para esquecer a lembrança

De um passado de amargura.

Um homem sem sorte

Que, contudo, engana a morte.

Um homem que come esperança,

Mas a lembrança perdura.

 


CDP I - RECORDAÇÕES  DE  ENCARNADO

 

No fundo da minha alma

Levo-te hoje para dar

Uma rosa encarnada.

Das mais belas que eu encontrar

É uma rosa apaixonada

Que eu quero abraçar.

É uma rosa encarnada

Aquela que eu quero amar.

O tempo que eu fui esperando,

É apenas uma ilusão.

A vida que foi passando

Gelou-me o coração.


 

CDP I - SONHOS DE ESPERANÇA

 

Amor,

 

Sinto que as horas não tardam

Escorrendo por entre os meus dedos impotentes.

Os mesmos que afagam o teu cabelo perfumado

Em carícias nostálgicas de azul.

 

Envolvendo-te num abraço suplicante

Percorro o teu corpo quente e palpitante,

Que como uma fonte de prazer,

Nos faz cair em momentos de esquecimento.

Amor, não te vás embora,

Não me deixes sozinho com os meus pensamentos,

Não te afastes de mim.

 

Quero beber dos teus lábios insatisfeitos a palavra paixão,

Quero transbordar-te de prazer e satisfação,

Para depois saborearmos o momento de estarmos juntos.

Sabes, amor?

 

Quantas vezes me sinto perdido

Esperando por um novo encontro?

Tantas como as que tenho sonhado,

Imaginando que no passado,

Não existia solidão,

 

Mas simplesmente...

 

Amor, e paixão!



CDP I - PÓ DE ESTRELAS

 

Uma estrela brilha no coração do nada.

A sua luz aquece e ilumina a esperança,

Uma lágrima quente ela derrama

Vertendo-a no espaço frio...

No vento solar ela vigia

Trespassando o vazio com o seu brilho.

Heis que uma lágrima cai do céu

E transforma-se em vida.

Vida frágil, preciosa,

Que sorri e canta alegremente,

Que não parece estar doente,

Mas mal nasce está condenada.

A vida é... Hipotética,

A morte é... Conclusão,

A vida é um instante

Que se perde na imensidão.

O nosso corpo, quando abandonando a vida

A deixa seguir o seu caminho,

Transforma-se em pó de estrelas,

Tão brilhantes e belas,

Tão vivas e tão singelas,

Mas que também morrem devagarinho...



CDP I - FILHOS DA RUA


Dois olhos meigos, mas cansados,

Percorrem atentamente o horizonte.

Buscam o norte da esperança...

Uma boca esfomeada, gretada pelo frio...

Uma alma desencantada à beira-rio.

Um grito de tormento que ecoa,

Que livre como o vento corre,

Corre sempre sem parar...

Buscando a sorte, fugindo à morte...

Um corpito sujo e magoado que tirita de frio.

São as crianças da rua,

Perdidas na vida.

São vítimas inocentes

De uma loucura desmedida...



CDP I - A GARATUJA

 

Amei sempre toda a gente.

Tentei viver dignamente,

Dizendo sempre a verdade.

 

Não sou leigo nem doutor,

E neste momento de dor

Choro com muita saudade.

 

Toda a vida encontrei

Alguém que quis ser rei,

Presidente ou imperador.

Mas neste momento de dor,

Lembro-me da fina flor

Que me ensinou a verdade.

 

Quando eu era pequenino,

Estando um dia sentado

Na escola a desenhar

Um tema por ela mandado,

Que com enorme cuidado

Eu devia executar.

Terminado este trabalho,

E para meu grande espanto,

Vi meu desenho louvado...

Ganhei fama, e outro tanto…

Orgulhoso fiquei de ver minha garatuja

Ao alto afixada, com destaque de Amizade.

 

É com eterna saudade

Que recordo estes tempos

E, com profunda ternura,

Fui entregando meus talentos,

Quando podia-me encontrar

Com a minha professora.

Foi essa terna senhora,

A quem eu muito estimava,

Aquela que me ensinava

A mais bela das lições:

 

- “Tem Fé e Ama a Cristo

Reza as tuas orações.”

 

5/11/91

 

À memória de uma professora... que me “cativou”.


 

CDP I - ORAÇÃO


Se eu algum dia morrer,

De doença ou infortúnio,

Peço a Deus que me perdoe

Sou um pecador do mundo.

Passados que foram os anos

Já aprendi a lição,

De todos os problemas

Só um não tem solução.

Se um dia filhos tiver

Desejo-lhes melhor sorte.

Peço a Deus que me perdoe,

Livrai-os da minha morte.


5/11/91

 


CDP I - GOTA DE ORVALHO

 

A gota de orvalho

Que caí de uma flor,

O canto de uma ave,

A voz do Amor,

O grito profundo

Que cresceu dentro de mim,

A solidão, o mundo,

Parecem não ter fim.

O Azul do Céu

Reflectido no mar…

A calma emanante

Que paira no ar,

O esplendor do Sol

Que nasceu além,

Por traz da montanha

Cantam as aves também.


 

CDP I - O HOMEM

 

  Aquele VELHO sentado

   que brinca...

      Aquele HOMEM que chora

       apaixonado...

          Aquela triste figura

           que outrora foi;

           MARIDO , PAI , TRABALHADOR...

              Aquele HOMEM que sente a dor,

               e depois canta...

                  AQUELE a quem já não se pede

                   compostura,

                               ESTÁ LIVRE...

                          livre para ser CRIANÇA...

 

 

CDP I - ILUSÕES

 

Na areia eu construí um castelo,

Era meu, só meu,

Era alto, forte... era belo.

Era um castelo de ilusões,

Era o meu mundo de sonho...

 

Deito-me na areia e observo as nuvens alvas,

Aquela parece-me familiar,

Já a encontrei em outros sonhos.

Descubro formas e pessoas que nunca conheci,

Formas que no entanto me parecem tão familiares...

Uma gaivota grita subitamente

Trazendo-me de novo à realidade.

Levanto-me lentamente

E começo a caminhar praia fora...

Estou descalço e tenho frio.

Um vento agreste, vindo do Norte,

Dificulta-me o andar

E lentamente perco o alento.

Deixei um rasto na areia

Que se esbate ao sabor das ondas.

Lá longe, o meu castelo afunda-se

Dissolvendo-se no mar.

São as minhas ilusões

Que navegam perdidas nas ondas,

Fica apenas a esperança de retornar um dia…



CDP I - LEMBRANÇAS

 

Tenho na mão uma flor,

Da cor da esperança...

Na outra, tenho a ilusão

Da verdade.

No corpo, tenho a marca

Da lembrança...

Guardo no coração a saudade.

Tenho comigo uma criança,

Que sorrindo me encanta.

Também tenho um passarinho

Que canta de felicidade...

Mas um sorriso é efémero,

Assim como a verdade.

A criança ri e chora

Ao mesmo tempo...

E o vento afaga o seu rosto pequenino...

Criança do mundo e do vento,

Criança coração, criança de solidão,

Mundo de ilusão.

São momentos apenas que eu recordo,

Momentos de mentira e de verdade,

Momentos frágeis, mas eternos,

Que contudo nos enchem de saudade...



CDP I - PELA MANHÃ

 

Quando as estrelas se aconchegam no firmamento

Para se deitarem no leito celeste,

E os sonhos se desvanecem em mil pedaços,

Levados pelo vento.

Quando a lua nua se veste

E seu esplendor recolhe com pudor;

Quando já não há ninguém que sonhe

Em busca de reinos e paixões;

Quando as gotas de orvalho acordam

As mais belas flores do campo,

Descobre-se por fim o encanto,

Despertam desejos escondidos...

O dia chega lentamente e toca a noite,

Beija-lhe a face cansada de esperar,

Afaga os seus longos cabelos ondulados,

E sussurra-lhe levemente palavras de consolo,

É o encontro da noite com o dia

De natureza breve e apaixonada,

São lágrimas de tudo e de nada

Que marcam a hora...

É o primeiro raio de luz que não demora

Para partir em seguida...

Aguardo o momento do encontro.

Sinto a sua presença na ausência.

Penso se partirá agora

Ou se esperará por mim...

Breve como um suspiro,

Cristalino como a água da mais pura nascente,

O seu sorriso recordo, mas não choro

Para não acordar a mágoa.

Sinto que é chegada a hora.

É a luz que não demora

Partindo para um novo dia.

Penso que morro!

Quero correr e agarrá-la,

Abraçá-la, beijá-la,

Dizer-lhe que a amo

Mas já vou tarde...

Mais uma vez perdi-a...

Se não me engano,

Parece-me vê-la ao longe, agora…

Por momentos consigo tocar-lhe,

Mas não posso contar-lhe

Tudo aquilo que sinto,

Pois o dia vai nascendo

E com ele eu vou morrendo

Sempre que a vejo partindo...




CDP-II



 












CDP II - LISBOA

 

Lisboa cidade moça,

Tu és a minha mulher,

Por entre as tuas vielas,

Nas tuas ruas tão belas,

Só não canta quem não quer.

Lisboa cidade morena

Tu és aquela cantilena,

O pregão que paira no ar.

Lisboa cidade menina,

Tu és como aquela cantiga

Que se ouve a assobiar.

 

21/01/97


 

CDP II - O TEU ROSTO

 

O teu rosto tão sereno, eu contemplo,

Que como os estilhaços do tempo,

Não para de nos pasmar.

O teu rosto tão belo eu olho,

Que como aquele belo tesoiro

Não paramos de cobiçar.

O teu rosto de saudade eu afago

Pleno de ternura e emoção.

O teu rosto desnudado

É belo como uma canção!

 

25/01/97

 

 

CDP II - TEJO AMADO

 

Rio Tejo de águas salgado,

Alma eterna de Lisboa.

És o Tejo meu amado,

De tuas águas enamorado

Olho a cidade de Lisboa.

 

25/01/97


 

CDP II - O TEU CORPO

 

Teu corpo aveludado

De sol irradiado,

Da cor das estrelas,

Que belas!

É como um manto doirado,

Resplandecente, quando desnudado.

Quase sempre insaciado,

Cheio de curvas singelas.

É um caminho que percorro,

Com as minhas mãos impacientes.

É um carinho que sentes

Bem de mansinho.

É um sonho, é um ninho

No qual me aconchego despreocupado.

É um momento roubado.

É como uma canção.

Deleito-me a escutar

O ritmo do teu coração.

 

21/05/97


 

CDP II - GOTAS DE ÁGUA

 

Gotas de água, que das nuvens altas se desprendem,

São como pérolas pendentes da árvore da vida.

São fragmentos frios, que se esvaem no vazio.

São como rios de água gelada,

Que já não correm livremente.

São como bocados de gente

Nua e despreocupada,

Que se envolve de repente

Em actos de amor selvagem.

São como uma paisagem

Eternamente serena.

São como uma flor amena

Que sedenta as absorve.

São o fruto e a árvore,

Que cresce mas não se move.

 

21/05/97


 

CDP II - CHUVA NEGRA

  

Chuva negra de tormentos,

Tu és o meu desalento,

És o meu descontentamento,

És a minha desilusão.

Chuva negra de saudade.

Eras a minha liberdade.

És como uma triste canção.

Chuva negra de ilusão,

Já não és a minha esperança.

Turvas-me a lembrança,

Dilaceras-me o coração.

 

21/05/97


 

CDP II - ANSIEDADE

 

O teu corpo nu eu contemplo

Olhando com ansiedade.

Espero pelo momento

Em que irás fazer amor comigo.

Espero com ansiedade

Que me toques.

Quero sentir-te!

Quero amar-te!

Quero tocar-te!

Em momentos felizes de carícias

Quero sentir as delícias do teu olhar.

Quero poder-te amar

Em carícias mil

Delícias.

 

21/05/97


 

CDP II - TEMPO

 

«(…) Sou tempo distante do meu pensamento,

nos braços do sol e do pão a sonhar;

girando nas faces das rodas do vento,

sou sonho presente na noite a passar... (…)»

 

Joaquim Ramalho Claro

 

Sou a vida que corre neste momento.

Sou o tormento.

Sou corpo que rola no sentimento do amor.

Sou o pão e sou a dor.

Sou o alfa e o ómega do meu pensamento.

Sou aquela flor que morre

Nos braços do seu amor.

Sou o tempo, que escorre sem parar.

Sou o rio e sou o mar

Onde desagua o desejo.

Sou aquilo que ensejo.

Apenas desejo amar!

 

21/05/97


 

CDP II - NUA DE AMOR

 

Dois corpos desnudados

Rolaram abraçados

Na cama fria.

Contorciam-se, despreocupados,

Em convulsões de amor.

Eram espasmos de amor,

Que nos enchiam de felicidade,

Não havia falsidade,

Estavas nua de amor.

 

21/05/97


 

CDP II - ETERNIDADE

 

Eu nunca te esqueci

Eu nunca te deixei

Eu nunca te menti

Mas sempre te amei!

Nunca te perdi

Nunca te chorei

Nunca te menti

Mas sempre te amei!

Sempre te desejei

Sempre te procurei

Sempre te encontrei

Mas sempre te perdi!


21/05/97



CDP II - A LUZ QUE ME GUIA

 

Tu és a luz dos meus olhos.

És a fonte da minha vida.

És a minha felicidade,

Que parte logo em seguida.

Tu és a minha esperança,

Aquela que me dá forças

E me faz ver

Que o mundo será sempre redondo,

Faça eu o que fizer.

 

21/05/97


 

CDP II - ALMA DE AMOR

 

A minha alma é cativa,

Prisioneira do amor.

Não quero viver sozinho!

Não quero viver na dor!

Não quero desesperar,

À procura do inatingível!

Não quero morrer sozinho.

Ajuda-me por favor!

 

21/05/97


 

CDP II - SONHOS DE AÇÚCAR

  

Mulher doce e sensual

És minha vida, meu sal.

És a minha solidão.

És o meu mundo absurdo

No qual me escondo, sisudo.

És a minha ilusão,

És a minha fantasia,

A minha alegria.

És a luz que me guia.

És aquela que eu queria

Para minha mulher.

Mas, no fundo, eu sempre soube

Que estavas de partida.

A vida é efémera

E a despedida

É sempre dolorosa à partida.

 

21/05/97


 

CDP II - CARÍCIAS EM AZUL

 

O teu corpo palpitante eu percorro,

Em carícias nostálgicas de azul.

O teu corpo sedutor eu desejo.

Em momentos de amor,

O teu corpo quente eu acolho

Nos meus braços sedentos de carinho.

O teu corpo ansioso eu satisfaço

Completando o meu destino.

 

21/05/97

 


CDP II - A MESA

 

Dois namorados, sentados à mesa,

Conversam apaixonados.

Esperam por um momento de prazer

Que os invada.

Ele toca a mão dela devagar,

Ela olha para ele e beija-o na face

E, de súbito deste enlace

Sai um suspiro de paixão.

É um pedido sedutor,

De amor.

O empregado, ao longe, espreita

E aproxima-se devagar

Num tom forte pergunta:

- Afinal o que é que vão tomar?

Ele olha para o empregado

E depois para a namorada,

Não se consegue conter

E desata à gargalhada.

O empregado, estupefacto,

Pergunta novamente assim:

- Não tenho tempo para gracejos,

Digam-me o que querem, sim?

Ele pediu dois cafés,

Uma cheia e um descafeinado,

E o empregado já danado

responde:

- Aqui não servimos cafés,

Apenas sumos e licores.

E ele já cheio de dores de tanto rir

Responde:

- Não faz mal, que sumos tem?

- Temos laranja e ananás

E batido de morango também!

Ele pensa um bocado

E pergunta à namorada:

- O que achas do batido?

E ela responde:

- Já não me apetece nada...         

 

21/05/97

 


CDP II - QUANDO ME OLHAS AMOR

  

Quando me olhas, amor,

Sinto-me enternecer

E faço por esquecer

Todos os momentos de dor.

Todos os momentos nos quais

Eu sentia a tua falta,

Momentos em que me amavas,

Como nunca me tinhas amado.

Momentos em que me olhavas,

Como nunca me tinhas olhado.

Quando me olhas, amor,

Eu esqueço-me completamente

De quem sou,

Do que faço,

Fica somente o desejo

De te roubar um abraço...

 

22/05/97

 


CDP II - BRILHO

  

Hoje alcancei as estrelas.

Tão altas e tão belas,

Tão bonitas e singelas,

Que cintilam devagarinho.

Brilham no meio da noite calma,

E aquecem a alma

Dos amantes que, de noite,

Buscam refúgio para o seu amor.

São estrelas de valor

Que nos guiam na escuridão.

São estrelas de ilusão,

Que nos mostram o caminho.

São estrelas de emoção,

Que nos amam devagarinho.

 

22/05/97


 

CDP II - SENTIMENTOS

 

Sinto-me vazio de tudo

E cheio de nada,

Como se o nada pudesse preencher o vazio.

Sinto-me farto e enfadado,

Sinto-me enregelado,

Magoado,

Decepcionado,

Enfim,

Que sei eu?

Nada...

Que procuro eu?

Não sei...

Talvez o amor...

Talvez a amizade...

Outras vezes a solidão

Que nos trás a saudade,

Saudade de alguém

Em quem possamos confiar.

Alguém que nos ame

E que desejemos amar...

 


CDP II - UM DIA MAIS...

 

«(…) Após um dia tristonho,

de mágoas e agonias

vem outro alegre e risonho:

são assim todos os dias (…)»

 

António Aleixo

 

Após um dia de mágoas,

De desesperos fatais,

Vêm outros

Mais felizes entre os demais.

Após um dia medonho,

Em que tudo parece sem solução,

Vem outro dia risonho,

Alegre como uma canção.

 

Após um dia de tormentos,

No qual nos vemos enredados,

Vem outro dia de sonho,

No qual julgamos estar apaixonados.

 

E como disse António Aleixo,

Após um dia de queixume,

Vem outro alegre e risonho,

Sabemos que assim é costume...


22/05/97


 

CDP II - PALAVRAS AO VENTO

 

Palavras, deito-as ao vento

Nos meus momentos de tormento.

Momentos em que o desalento

É filho da desilusão

E é com muita emoção,

Que vou ditando o meu destino.

Palavras, deito-as ao vento.

São o meu desatino.

 

22/05/97